ver abaixo e trocar "Visions" por "We Must Become the Pitiless Censors of Ourselves", 2012 por 2011, primeiro por enésimo.
Sábado, 11 de Fevereiro de 2012
Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
Grimes

A pop eletrónica tem já praticamente quatro décadas, podendo-se atribuir um início à invenção do sintetizador. Dos tempos áureos de Kraftwerk e das colaborações deliciosas entre Giorgio Moroder e Donna Summer até 2012, tivemos já excelentes exemplos dos quatro cantos do mundo. E, com a chegada da era digital, com os instrumentos todos inventados, a grande invenção no género parece recair sobre as possibilidades de mexer com a voz humana, o outro grande instrumento essencial para a arte de fazer (boa) pop eletrónica. A ilusão de um homem/mulher-máquina nunca esteve tão perto.
O projeto Grimes - fundado pela canadiana Claire Boucher (com apenas 22 anos) - pega nessa premissa. A voz extrema e pouco humana de Claire por si só lembra-nos um pouco Karin Dreijer Andersson (dos The Knife e do projeto paralelo Fever Ray). Mas não se pense que esta é música propriamente gélida... estamos, tal como no caso de Karin, perante um conjunto de canções não só bem orquestradas como nos parecem ainda instintivas, com pulso, capazes de surpreender. E que nos convidam, a cada escuta, a penetrar um pouco mais no seu mundo "chamber-gótico".
Não se tendo ainda a certeza se Grimes serão outro caso de sucesso como os suecos The Knife, ou se permanecem mais obscuros como uns Zeigeist, pode-se ao menos ter a certeza do seguinte: "Visions" é o primeiro álbum de 2012 capaz de abalar as contas finais do ano.
O projeto Grimes - fundado pela canadiana Claire Boucher (com apenas 22 anos) - pega nessa premissa. A voz extrema e pouco humana de Claire por si só lembra-nos um pouco Karin Dreijer Andersson (dos The Knife e do projeto paralelo Fever Ray). Mas não se pense que esta é música propriamente gélida... estamos, tal como no caso de Karin, perante um conjunto de canções não só bem orquestradas como nos parecem ainda instintivas, com pulso, capazes de surpreender. E que nos convidam, a cada escuta, a penetrar um pouco mais no seu mundo "chamber-gótico".
Não se tendo ainda a certeza se Grimes serão outro caso de sucesso como os suecos The Knife, ou se permanecem mais obscuros como uns Zeigeist, pode-se ao menos ter a certeza do seguinte: "Visions" é o primeiro álbum de 2012 capaz de abalar as contas finais do ano.
Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011
Baú pop: Talk Talk - The Party's Over

Mais um disco que o tempo parece ter esquecido, este primeiro álbum dos Talk Talk, banda que atravessou um dos "makeovers" mais fascinantes que alguém se possa lembrar: de banda "synth pop" de segunda linha até fundadores do género "pós-punk" - com os álbuns "Spirit of Eden" e "Laughing Stock".
"The Party's Over" não abre novos caminhos, é certo, mas é um excelente seguidor de correntes, sendo injustamente criticado por esta colagem e pela sua sonoridade "muito 80s", quando os seus antepassados não reinventaram propriamente a roda. Nomeadamente, e incontornavelmente, surge o nome dos Duran Duran, banda que por sua vez herdou genes dos Japan, e estes de Bowie e Roxy Music... a história da música pop é feita de uma árvore gigante de referências, apre!
A voz melancólica e melodiosa de Mark Hollis começa já aqui a fazer estragos, e sim, a sonoridade é muito presa à época, mas o álbum funciona incrivelmente como um todo coeso (e não só à conta de faixas mais famosas como "Talk Talk") - uma cápsula perfeita do que a música de sintetizadores era capaz de transmitir no melhor dos tempos.
Em suma, tomara que todos os discos pop fossem assim, quer em 1982, quer sobretudo em 2011...
Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
Amor Estúpido e Louco

Há os romances bonitinhos e perfeitinhos de Danielle Steel e Nicholas Sparks, e do lado oposto do espectro, há os romances de carne e osso que encontramos em filmes como "Like Crazy". Humanos, motivados por razões igualmente irracionais, mas que cometem erros que escapam ao mundo cor-de-rosa dos livros.
Neste caso, não há qualquer conflito entre pais, ou diferença social, económica, sexual, de género, ou o que quer que seja. Há dois jovens - Anna e Jacob - minimamente atraentes é certo (há essa cedência), que se conhecem e apaixonam nos Estados Unidos. Ela tem um visto de estudante, que deixa estupidamente expirar... por amor. Será fácil questionar porque raio é que a personagem faz isso. Assim como será facil racionalizar outros aspectos: porque é que Jacob não se muda para o Reino Unido? Ou porque é que não se mudam para um outro país qualquer do globo? Mas o amor, tal como a vida, não pode ser medido com as medidas típicas que usamos habitualmente para avaliar quantitativamente e qualitativamente obras e restantes objectos. E ao acreditarmos plenamente naquela relação, e naquelas personagens (fruto também de performances apaixonantes e muito improvisadas do par Felicity Jones+Anton Yelchin - a partir de um esboço de 50 páginas), acreditamos nos seus erros humanos. Acreditamos que o amor é importante, mas em muitos aspectos deixar uma vida assegurada pode ser assustador para um dos membros. Que o amor é grande mas raramente pode ser 50/50. Que o verdadeiro amor pode não sobreviver a um simples lapso, infelizmente.
"Like Crazy" revela-nos também um estilo muito próprio a filmar este desabrochar e desenvolver de relação, nascido em Sundance sim, mas com uma marca identitária capaz de fazer-nos querer ver a restante obra de Drake Doremus. Muitas das pontes entre cenas (sobretudo na primeira metade) são feitas através de montagens de imagens ao som de música, aparentemente baratas, mas posteriormente plenamente justificadas, dado o contexto. É que as imagens adquirem aqui um autêntico estatuto de memórias positivas e incandescentes a serem coladas com fita adesiva em páginas de um álbum, ao lado de palavras sentidas. São as imagens passadas que posteriormente alimentam (e validam) esta relação à distância. E podemos chegar a um ponto onde estas passaram de tal modo a fazer parte de uma alimentação interna, que já não nos reconhecemos naquelas fotografias. E é aí que Doremus dá um toque final de génio a uma história despida e esqueletada, num final tão ambíguo como avassalador.

Neste caso, não há qualquer conflito entre pais, ou diferença social, económica, sexual, de género, ou o que quer que seja. Há dois jovens - Anna e Jacob - minimamente atraentes é certo (há essa cedência), que se conhecem e apaixonam nos Estados Unidos. Ela tem um visto de estudante, que deixa estupidamente expirar... por amor. Será fácil questionar porque raio é que a personagem faz isso. Assim como será facil racionalizar outros aspectos: porque é que Jacob não se muda para o Reino Unido? Ou porque é que não se mudam para um outro país qualquer do globo? Mas o amor, tal como a vida, não pode ser medido com as medidas típicas que usamos habitualmente para avaliar quantitativamente e qualitativamente obras e restantes objectos. E ao acreditarmos plenamente naquela relação, e naquelas personagens (fruto também de performances apaixonantes e muito improvisadas do par Felicity Jones+Anton Yelchin - a partir de um esboço de 50 páginas), acreditamos nos seus erros humanos. Acreditamos que o amor é importante, mas em muitos aspectos deixar uma vida assegurada pode ser assustador para um dos membros. Que o amor é grande mas raramente pode ser 50/50. Que o verdadeiro amor pode não sobreviver a um simples lapso, infelizmente.
"Like Crazy" revela-nos também um estilo muito próprio a filmar este desabrochar e desenvolver de relação, nascido em Sundance sim, mas com uma marca identitária capaz de fazer-nos querer ver a restante obra de Drake Doremus. Muitas das pontes entre cenas (sobretudo na primeira metade) são feitas através de montagens de imagens ao som de música, aparentemente baratas, mas posteriormente plenamente justificadas, dado o contexto. É que as imagens adquirem aqui um autêntico estatuto de memórias positivas e incandescentes a serem coladas com fita adesiva em páginas de um álbum, ao lado de palavras sentidas. São as imagens passadas que posteriormente alimentam (e validam) esta relação à distância. E podemos chegar a um ponto onde estas passaram de tal modo a fazer parte de uma alimentação interna, que já não nos reconhecemos naquelas fotografias. E é aí que Doremus dá um toque final de génio a uma história despida e esqueletada, num final tão ambíguo como avassalador.

"Like Crazy" não será um filme para todos. Mas para quem já atravessou uma relação autêntica repleta de obstáculos (nomeadamente relações à distância), é muito provável que vá bater forte. Se até a mim, pouco experiente nestas lides do "amor verdadeiro", bateu...
Domingo, 20 de Novembro de 2011
OVNI à Solta - Episódio 1
Em busca das obras mais insólitas e inclassificáveis alguma vez vistas, a rubrica "OVNI à Solta" inaugura em grande estilo, com um título de 1992 que servirá de "template" ao que se seguirá (ou não), protagonizado por duas estrelas em ascenção naquela altura.
"Prelúdio de um Beijo" agarra um conceito de "troca de corpos", popularizado há uns anos atrás por filmes como "Freaky Friday" ou "Big". Só que aqui a troca é ligeiramente mais surreal, porque transcende a própria pessoa, ou o género em que esta se insere, mantendo-se uma mudança geracional. Trata-se de um idoso à beira da morte que decide beijar do nada uma noiva (uma sempre carismática e radiante Meg Ryan, aqui a preparar-se para ocupar o trono de rainha das comédias românticas por uns... 7 anos - eu conto a tomada de posse a partir de "Sleepless in Seattle" pessoalmente), para depois...bem... haver uma troca de almas. Isto após uns três quartos de hora de comédia romântica acutilante q.b., em que nada faria prever esta resolução. Muito bom. Sabemos onde esta rotina de peixe fora de água se encaminha? Sinceramente, dá para desconfiar. Mas a certa altura, tememos tudo. E isso é bom.
"Prelúdio de um Beijo", na sua esquizofrenia eminente e com todos os seus problemas inerentes, é dos romances mais subestimados e... desconcertantes da sua década. E como dizer não a um filme com uma moral como "Usem fio dental!" (daquele dos dentes, não do...)?
"Prelúdio de um Beijo" agarra um conceito de "troca de corpos", popularizado há uns anos atrás por filmes como "Freaky Friday" ou "Big". Só que aqui a troca é ligeiramente mais surreal, porque transcende a própria pessoa, ou o género em que esta se insere, mantendo-se uma mudança geracional. Trata-se de um idoso à beira da morte que decide beijar do nada uma noiva (uma sempre carismática e radiante Meg Ryan, aqui a preparar-se para ocupar o trono de rainha das comédias românticas por uns... 7 anos - eu conto a tomada de posse a partir de "Sleepless in Seattle" pessoalmente), para depois...bem... haver uma troca de almas. Isto após uns três quartos de hora de comédia romântica acutilante q.b., em que nada faria prever esta resolução. Muito bom. Sabemos onde esta rotina de peixe fora de água se encaminha? Sinceramente, dá para desconfiar. Mas a certa altura, tememos tudo. E isso é bom.
"Prelúdio de um Beijo", na sua esquizofrenia eminente e com todos os seus problemas inerentes, é dos romances mais subestimados e... desconcertantes da sua década. E como dizer não a um filme com uma moral como "Usem fio dental!" (daquele dos dentes, não do...)?
Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011
Almodóvar e Kate
Curioso no espaço de um dia ter ouvido o meu álbum favorito de 2011 e ter visto o que pode ser o meu filme favorito do ano. Ambos são respectivamente do meu realizador e artista favoritos (Pedro Almodóvar e Kate Bush), logo será muito fácil acusarem-me de parcialidade. Seja. Ambas as obras meticulosas, complexas, difíceis de ingerir, desasossegantes, mas profundamente recompensadoras a longo prazo. Ambos os autores foram já criticados em certos círculos por pisarem uma fina linha entre o génio e o ridículo, e por terem adoptado uma ligeira mudança de estilo recentemente. Almodóvar está mais frio/negro, e Kate... bem, encontrou refúgio no frio, com canções que se estendem no horizonte.


O que é curioso observar é que ambos os trabalhos representam um culminar dos mundos previamente explorados por ambos os artistas nas suas três décadas de carreira. Almodóvar, mais prolífico, teve duas fases essenciais: uma "imatura" que durou até ao início da década de 90, e outra "madura" que teve o seu auge em filmes como "Tudo Sobre a Minha Mãe", "Fala Com Ela" e "Voltar". Neste "A Pele Onde Eu Vivo", encontramos não só um humor e uma bizarria que já não víamos no cineasta desde "Kika" (a sequência do "super-tigre" que viola Vera é claramente reminiscente da cena em que Kika é violada pelo actor porno Pablo!), misturada com uma precisão e maturidade só vista nos filmes que realizou na última década. Isto tudo formando um novo pacote - não só o seu filme mais díficil, como quase que fazendo parte de um novo (terceiro) género de filme para o cineasta.

Do mesmo modo, em "50 Words for Snow" encontramos uma condensação de tudo o que se passou anteriormente - ouvem-se ecos de álbuns como o anterior "Aerial", mas também "Hounds of Love", "The Dreaming" ou "The Sensual World", o que faz com que este álbum seja uma progressão natural do seu trabalho anterior, para algo que ainda não tinha feito ainda. Desde o tamanho das canções, que aqui lembram também Talk Talk no seu período final, até a novas ideias conceptuais ainda não propriamente exploradas - incluindo uma história de amor entre uma mulher e o seu boneco de neve, e uma faixa-título que precisa de ser ouvida para ser acreditada (basicamente são "arranjadas" 50 "palavras" para neve, tal como o título sugere, numa quebra completa da estrutura clássica de uma canção).
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"A Pele Onde Eu Vivo" pode ser visto a partir de hoje num cinema perto de si. "50 Words for Snow" está disponível para stream no site NPR em: http://www.npr.org/2011/11/13/142133269/first-listen-kate-bush-50-words-for-snow?ps=mh_fl e estará à venda a partir da próxima semana
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