domingo, 10 de fevereiro de 2013

O sexo e a hipsterlândia



Há algo de desconcertante em ver um episódio de "Girls", série da HBO sobre um grupo de 4 raparigas à deriva na cidade de Nova Iorque que conquistou já a crítica (e arrecadou já este ano o Globo de Ouro para Melhor Série de Comédia). Soa familiar? Pois deve soar: afinal, foi a mesma HBO que há uns 15 anos atrás trouxe umas raparigas um pouco mais velhas ao pequeno ecrã, e nos fez olhar para a nova mulher cosmopolita. 




Bem, "Girls" é também cosmopolita, e as suas quatro jovens diferentes umas das outras (a virgem, a assente, a louca e a protagonista, a "gorda" que não é gorda, que acumula um pouco de tudo no fundo, e acaba por fazer melhor de espelho ao espectador comum que uma Carrie Bradshaw...) mas substitui a superficialidade dos "cupcakes" e "Cosmo"'s por um artifício "hipster", que a cada episódio, vai lutando com a real genuinidade de muitos dos seus diálogos, trazendo o tal efeito... desconcertante. Mas é também este jogo de artifícios com momentos verdadeiramente pungentes que nos faz voltar semana a semana, e apreciar um pouco mais este mundo tão fora do nosso alcance, mas que acreditamos que exista.



  

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A modos que..

Que faz um ano desde que escrevi o meu manuscrito deambulante e subterrâneo, o qual teve exactamente 37 leitores (contados a dedo e entrevistados pessoalmente) e ZERO vendas online. 


Apesar desta desgraça, e como é mais forte do que eu, creio ter um novo bebé a nascer brevemente, não será necessariamente nos mesmos moldes do anterior ("I don't like to repeat myself", como já dizia a outra...), mas será algo... assim... contínuo. E bom. E sem limites, como nós gostamos.

sábado, 23 de junho de 2012

Apanhado musical dos últimos tempos


Patti Smith - Banga - mais do que cumpre as expectativas. Patti Smith de volta à poesia em forma de música, depois de ter feito um pouco de tudo nos últimos tempos (desde aparecer num filme de Godard até ter escrito um livro sobre a sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe). Um álbum de viagens e de pessoas, vivas e mortas, a descobrir e descamar.  


Saint Etienne - Words and Music By Saint Etienne - é muito difícil dizer mal desta banda e deste álbum. Sempre vi estes três senhores como três "geeks" musicais com um toque de tios excêntricos que nos oferecem as prendas que mais ninguém se lembra. E depois porque há muitos anos que não se ouvia maior elogio ao amor pela música (basta para tal ouvir os minutos iniciais de "Over the Border", com linhas como "I used Top of the Pops as my world atlas"...), e através deste manifesto tão meta, "Words and Music" consegue desde logo conquistar-nos. Mas Sarah Cracknell, Bob Stanley e Pete Wiggs têm também na manga pop deliciosa a acompanhar, que consegue transitar, como já nos habituaram, entre todos os géneros que popularam a boa pop nos últimos 40 ou até 50 anos...

e por falar em bandas que ainda não desiludiram...
Hot Chip - In Our Heads - é outro magnífico testamento pop, um álbum que faz também ele cada vez mais sentido enquanto todo à medida que se vai escutando mais, que faz com que a banda de Alexis Taylor, Joe Godard e companhia se torne claramente numa das minhas bandas favoritas nascidas na ultima década.

Sebastien Tellier - My God Is Blue - tem o ar mais próximo a um Giorgio Moroder, e a sexyness de Serge Gainsbourg. Musicalmente, Tellier tem uma mistura explosiva de ambos, e volta a mostrar ao mundo pós-Donna que é um dos salvadores do género. Já se endeusaram artistas por menos. Muito menos.

Fiona Apple - The Idler Wheel yadda yadda yadda - é precisamente o que se esperava de um regresso de Fiona Apple, nem mais nem menos. Talvez um pouco mais de maturidade, sim, letras bem diretas. Mas "Tidal" já as tinha há 16 anos atrás, a malta parece esquecer-se...Uma pessoa não fica nada desiludida, mesmo com a falta de facilidades e do excesso de subtileza a pontos.

Kimbra - Vows - mais uma bela importação vinda da Oceania (depois de Gotye). Audaciosa, dotada de uma voz preciosa e moldável e de 435 ideias para um só álbum, Kimbra torna-se aqui numa grande esperança também para a "salvação da pop" no sector feminino. Depois de Janelle Monae, e agora com esta Kimbra, Prince pode sorrir. 

Dexys - One Day I'm Going To Soar - para mim este sim o regresso do ano e um dos álbuns incontornáveis de 2012. 27 (!) anos depois do último álbum, a fazer provar a bandas igualmente velhas como os Ultravox (com um decente mas enjoativamente estagnado "Brilliant") que os milagres musicais acontecem. E que do antigo pode nascer algo completamente intemporal. Basta não ter barreiras. E este álbum não as tem. Estamos praticamente perante um musical estouvado em três actos, sobre um frustrado amoroso (Kevin Rowland, ele próprio!), e a sua vida cheia de altos e baixos - a certa altura, apercebemo-nos que não é só dos relacionamentos amorosos, mas também do seu relacionamento "sui generis" com a sua "banda" (agora com algumas substituições) e o uso da música como catarse que nos fala. Em termos temáticos, não estamos longe do território de uma Fiona Apple portanto. Um álbum que também não se entra a 100% à partida, e que fará muito mais sentido para quem conhece a banda de antemão e cresceu a ouvir os gloriosos 12 minutos de "This is What She's Like" em vez de um "Come on Eileen" apenas...





domingo, 27 de maio de 2012

The 80s - Ahead of the curve

Se os novos românticos eram os tipos populares, bem vestidos e pintados de acordo com as últimas tendências, estes 17 artistas/bandas/projectos eram os verdadeiros rebeldes da zona. Desafiaram a norma numa década em que a norma era já em si plena de criatividade... E sim, repito Kate Bush porque posso, e porque soube ser uma senhora da pop E uma mulher constantemente à frente do seu tempo.

Kate Bush - Sat In Your Lap

Laurie Anderson - O Superman

Throwing Muses - Hate My Way


Roxy Music - Running Wild


John Foxx - Underpass


Japan - Methods of Dance



Grace Jones - I've Seen That Face Before (Libertango)


Dexys and the Midnight Runners - Geno



Cocteau Twins - Carolyn's Fingers


Peter Gabriel - Mercy Street


Prince - U Got The Look


This Mortal Coil - Tarantula 


Talking Heads - Burning Down The House


Young Marble Giants - Music For Evenings


The Blue Nile - Easter Parade


Brian Eno - An Ending (Ascent)


Talk Talk - I Believe In You



sexta-feira, 25 de maio de 2012

The 80s - New Kids, New Toys

Novas caras, novo som. Com os sintetizadores aprumados e geralmente bem vestidos e até com maquilhagens agora mais questionáveis, estes senhores sabiam o que faziam, ponto. 

Depeche Mode - Shake The Disease

OMD - Souvenir

A Flock of Seagulls - I Ran (So Far Away)

The Human League - Love Action (I Believe In Love)

Hall & Oates - I Can't Go For That

Duran Duran - Planet Earth

António Variações - Estou Além

Soft Cell - Say Hello, Wave Goodbye

Simple Minds - New Gold Dream

New Order - True Faith

Ultravox - Vienna


David Bowie - Ashes To Ashes


Tears For Fears - Mad World

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O álbum perdido de Donna Summer



Chama-se "I'm a Rainbow". E apesar deste título tão... sugestivo, a sua história guarda uma das decisões mais crípticas vinda de uma produtora discográfica. 

Estávamos em 1981, e Donna Summer estava, podemos dizer confortavelmente, no pico da sua carreira, ainda a viver do sucesso esmagador do sublime "Bad Girls" de 1979. No ano anterior, Summer tinha tomado uma nova viragem, saindo do "disco" para uma roupagem mais new wave/rock (numa clara piscadela de olho a quem agora seguia Debbie Harry) no menos consensual "The Wonderer", mas ainda assim valendo-lhe fortes elogios (a Rolling Stone chamou-lhe na época o seu álbum mais consistente; e mais elogios brotaram de Robert Christgau e da publicação All Music Guide).  

"I'm a Rainbow" é, tal como os seus dois melhores álbuns ("Once Upon a Time" e "Bad Girls") um ábum duplo. A sua editora na altura (Geffen) decidiu metê-lo na prateleira, contra a vontade de Summer. Poderíamos por isso pensar que estávamos perante o início do fim para a cantora. E de certo modo, estávamos. Mas por erro da editora, porque a música aqui permanece tão forte e tão "avant-garde" como há um par de anos atrás. 

Em 18 temas, cabe praticamente tudo, e tudo a fazer um prognóstico de como viria a ser muita da música da década que então começava: ora temos baladas de dançar colado marcadas por um piano sintetizado ou um saxofone (e a maestria da produção de Giorgio Moroder), ora temos a continuação do som "new wave/rock" e Hi-NrG, e pelo meio há ainda espaço para gaitas-de-foles (!) - no hipnótico "To Turn The Stone", ritmos semi-orientais, um dueto com Joe Esposito, e uma "cover" sentida de "Don't Cry For Me Argentina", 15 anos antes da sua sucessora Madonna imortalizar de vez o tema. 

"I'm a Rainbow" marcaria infelizmente a última colaboração entre Moroder (e Bellotte) e Summer. Em 1982, Summer lançaria a continuação "oficial" de "The Wanderer", num álbum homónimo em colaboração com Quincy Jones (que produziu "Thriller" nesse mesmo ano) - este sim, um claro início de uma nova fase ("State of Independence" aparte). O álbum viria a ser lançado quinze anos depois, já quando Summer, já com a sua chama apagada, era tida "apenas" como a cantora de "I Feel Love" - isto quando alguém a reconhecia de nome... 

Não será um álbum tão virtualmente "perfeito" como os dois acima citados (faltará talvez um "flow" melhor entre canções; nem sequer se trata de um problema de remoção de temas, uma vez que merecem todos destaque, e ao mesmo tempo poucos se destacam por si só...), mas no que toca a álbuns perdidos/"emprateleirados", está certamente lá no topo. 
 

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